Alguém mais sentiu a terra tremer? Eu não.

Passavam das nove da noite em mais uma terça-feira comum na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. Estava cuidando das minhas tarefas corriqueiras da repartição, alternando poucos minutos de bate-papo com os três ou quatro indivíduos presentes na sala.

Por volta das nove e vinte, o telefone tocou.

– Cara, você sentiu o terremoto aí?

Era o meu amigo Cassio, em algum canto de sua casa, no Jabaquara – há poucos quilômetros daqui. Fiquei boquiaberto: como assim “terremoto”?

– Comecei a ver as cadeiras tremendo, as coisas balançarem… Tudo que lembrei na hora foi pegar meu laptop e descer do prédio… Tenho que entregar um trabalho sem falta amanhã!!! – contou, assustado. Incrível como, em condições normais, qualquer mortal pensaria com total serenidade em respostas para a velha questão filosófica: se um tremor de terra atingisse seu lar de repente, o que você salvaria? Definitivamente, a teoria passa bem longe da prática.

Em segundos, abri meus portais de notícia de praxe: com total cautela, as primeiras notas da Folha e do G1 sairam, respectivamente, 30 e 60 minutos depois do tal tremor. Epicentro há uns 270km da costa paulistana, 5,2 graus na Escala Ritchie e sensações bêbadas em São Paulo, Paraná e Rio.

Interrompi os três ou quatro indivíduos presentes na sala.

– Algum de vocês por acaso sentiu este prédio tremer?

Todos negaram. Instantes depois, tocou um celular. Era o filho de alguém, que estava em Santo André, região metropolitana. Pediu socorro para a mãe, que prontamente deixou o prédio.

– Puxa vida, na minha infância, quando assistia àqueles filmes de vulcões e tremores no Cinemascope, diziam que nosso país jamais teria esses fenômenos de filme tragédia. Sinal dos tempos… – comentou o mais velho do grupo, que seguiu com suas atividades como se nada tivesse acontecido.

Em poucos minutos foi a vez do meu celular tocar.

– Já sei, pai. É o planeta dançando Créu para celebrar o Dia da Terra, né? Puxa, estou morrendo de inveja… Só eu não senti!
– É, eu vi aqui na TV. Todo o pessoal lá do sul tá ligando aqui em casa, querendo saber se tá tudo bem.

Isso é que é. Tantos motivos bacanas pra tirar o telefone do gancho e essa gente só se importa quando há iminência de tragédia. Essa combinação “informação” mais “família” é uma merda.

Enquanto pobres mortais congestionavam os telefones do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil em busca de informações, a patota se manifestava aos borbotões, como neste post dos Urbanistas (ex-Sampaist), comunidades no Orkut eram devidamente registradas, estratégias virais eram devidamente disseminadas… Em menos de duas horas, múltiplas reações povoaram a rede.

Claro que a massa delirava mesmo era no Twitter – onde, aliás, muita gente soube dos detalhes em primeira mão graças às mentes criativas iguais a do Doni: “5,2 é um terremoto moderado. Infelizmente só assusta velhinhas e dá assunto para blogueiros bobos”. De minha parte, obrigado.

Mas teve mais: “eu ainda acho que a culpa do #terremotosp é do #padrevoador”; “Lula: ‘nunca antes na historia destpaiz’…”; “na verdade foi o Valdívia que fez São Paulo tremer”; “#interneyfacts Interney resolveu quebrar seu porquinho no qual guardava moedas desde criança. Assim nasceu o #terremotosp”…

E a melhor de todas: “foi um sinal dos deuses: parem de falar na Isabella”. Concordo totalmente. Como diria aquele velho físico: uma força é sempre superada por outra maior.

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (17)

  1. Pô, o “blogueiro bobo” era uma auto ironia, já que eu cansei de fazer piadas a respeito do #terremtoSP no twitter. hehehe Mas, mudando de assunto, esse anúncio de “meet local single lesbian” que anda aparecendo por aqui é engraçado…

  2. Putz… também não senti! Que zuado!

    Eu senti um, há alguns anos, quando ainda morava em Poços… Não foi nada assustador, e eu achei um barato!!! hehehe

  3. Praticamente um viral…rs. Quem diria que era só um terremoto acontecer para blogueiros se divertirem até altas horas da noite. Mas tá, chorei de rir ao imaginar a Terra dançando o Créu para comemorar seu dia.

    Mas chocante mesmo é seu cabelo ao lado do Telê Santana.

  4. Incrível como os boatos, piadas e histórias pipocam cada vez mais rápido com o twitter.

    Rapaz, ainda bem que você deixou claro ter consultado os portais com “cautela”. Vai que sai uma notícia do “angar da Tam”.
    hehehhehe

    =D

  5. Mas não dá para negar que terremoto em São Paulo e Padre sumindo ao voar com balões tem alguma conexão. No mínimo é um sinal de que as coisas estão ficando mais doidas que nossa criativa cabeça pode imaginar.

  6. O pior é que eu estava trabalhando e não senti nada. Aí, segundos depois, ouvi o pessoal da “firma” comentando do terremoto…

    Medo.

  7. André, sempre acompanho seu site mas nunca comentei, mas a respeito do terremoto, entendo o pânico (ou a falta de). Aqui no Japão o fenômeno é tão normal, que quando dá, o pessoal nem sai correndo, mas se for daqueles iguais a de 1923 (que quase acabou com Yokohama, onde moro hoje) e a de Kobe de 1995, aí é caso pra se preocupar.
    Isso porque muita gente espera “o grande terremoto de Tokai” que estava previsto no ano retrasado…

  8. ontem por volta das 9 horas da noite eu estavo asistindo tv terepente leveu um susto olhei pra mesa do computador e viu tremendo de momento pensei que era minha vistas que estava ruim mais tarde eu vi na tv que era um teremoto morro em guaianazes no jardim fanganiello sao paulo

  9. Eu senti o tremor aqui em casa. Estava em frente ao computador, com a cadeira virada para o lado e aproveitando a capacidade de inclinação da dita cuja, quando de repente noto uma vibração.
    Estranhei um pouco e achei que pudesse ser coisa do prédio onde moro. Depois, mais uma vibração. Vejo uns líquidos em outra mesa sacolejar de leve.

    De cara, fiquei com medo. Já pensou se acontece em meu edifício o mesmo que ocorreu no Palace II? Tudo bem que o meu já tem 34 aninhos bem vividos e é muito bem construído, nem de longe aparentando ter a idade que tem. Quer dizer: até aparenta se pensarmos nas soluções arquitetônicas típicas dos anos 70, como janelas de alumínio que têm a largura integral dos cômodos (e que cortam legal qualquer fetiche por terraços por suprir muito bem esse desejo de ampla área aberta). Porém, outros condôminos sentiram o mesmo que senti.
    Depois de um tempo, a voz de William Waack falando que foi algo tão significativo que até a central dos bombeiros sentiu.
    Uma tia minha que mora em Indaiatuba e é bem distraída, daquelas que só não esquece a cabeça por estar em cima do pescoço, tinha notado coisa parecida mas não se ligara até a hora em que conversamos.

    Aliás, o tal tremor foi tão discreto que ainda hoje conversando com outros moradores do prédio, eles ou não notaram a vibração ou acharam inicialmente que era coisa do prédio.
    O que não me conformo por ora é a maneira como a mídia abordou. Caramba, sou do tempo em que isso era chamado simplesmente de “tremor de terra”, deixando o termo “terremoto” para coisas realmente trágicas, daquelas que matam milhares de pessoas de uma só vez. Agora, vemos o tal termo trágico nas bocas e nos dedos das matildes que editam os jornais e telejornais. E dentro de uma coisa que Michael Moore falaria em dois tempos que é para manter o povo paranóico, medroso e alienado, cheguei a ver absurdos dos maiores, como falarem de um risco de tsunami que nunca existiu. TSUNAMIS SÓ OCORREM QUANDO HÁ UM TERREMOTO EM REGIÕES ABISSAIS, COMO FOI AQUELE QUE VITIMOU O SUDESTE ASIÁTICO. E, CLARO, NO ATLÂNTICO SUL, TAL FENÔMENO OBRIGARIA QUE A COSTA AFRICANA FOSSE TAMBÉM AFETADA POR ONDAS GIGANTES, UMA VEZ QUE IRRADIARIA UMA ONDA CIRCULAR. CAROS COLEGAS DE PROFISSÃO, FALEM ISSO PARA VOCÊS REPETIDAS VEZES ATÉ SE CONVENCEREM, NEM QUE POR AUTOLAVAGEM CEREBRAL, DE MANEIRA A EVITAR A GERAÇÃO DE PARANÓIAS, BEM COMO VISÕES CÓRNEAS EM CABEÇAS EQÜINAS.

    Ah, se servir para alguma coisa, já senti prédio tremendo devido a terremoto de fato. Foi uma vez, há uns quatro ou cinco anos. Estava em um edifício na Marginal Pinheiros (portanto, terreno arenoso e mais susceptível a sentir abalos) e senti uma ligeira vibração. No mesmo dia, vi que o pessoal na Paulista sentiu ainda mais. O que era? Terremoto no Chile, daqueles que destrói mesmo as coisas.

  10. Ahhhh eu tb não senti e fico morrendo de inveja de quem experimentou o fenomeno!

    Outro dia aqui na Pauslita onde trabalho o povo falou q sentiu, ficou tonto e tudo!

    Infelizmente perdi mais uma vez o fenômeno!
    :(

  11. Como eu moro em Curitiba…. tava na aula bem tranquila. Por aqui a gente ja se contentou soh com padres voadores… nem queremos tremores de terra. Deixa as placas tectonicas mno canto delas rsrs

  12. Dependendo do epicentro, não daria para sentir mesmo. O primeiro grande aqui em Los Angeles que senti estava na sala da aula. As placas quadradas de vulcapiso ondularam. Não havia alunos porque aqui os professores chegam meia hora antes das crianças.
    Houve um “aftershock” quando estávamos dormindo. Nicolas quase saiu sem as calças do pijama e a população do bairro, toda da América Central, acampou na rua durante uma semana.

    Hoje, literalmente, o que vem de baixo não me atinge. Ha-ha.

  13. Eu também não senti nada, mas ouvi o barulho da porta de vidro da estante batendo devido ao tremor. Pensei: “Será que tem um rato em casa?” Errei por pouco…

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