A pessoa certa no momento errado

Passar mais um ano sem considerar o tal dia dos namorados não é nada comparado ao combo de frases feitas para consolar solteiros: “nem sempre o amor traz felicidade”; “o mundo é feito de escolhas”; “não deixe as oportunidades passarem” ; “essas coisas acontecem naturalmente”; ou a mais insuportável de todas: “o que é teu tá guardado”.

Imagino como a minha vida poderia ser diferente agora se os meus pais não tivessem ido atrás de novas oportunidades há trinta anos, permanecendo na zona rural, onde se esconde atualmente o município de Capão do Leão. Possivelmente iriam apenas até Pelotas, como fez boa parte da família. Fatalmente seria um homem casado, funcionário público ou motorista de táxi, uma casa e uma família para sustentar, recebendo visitas de centenas de familiares aos finais de semana.

Em compensação, quando não trabalho na megalópole paulistana, posso dar um pulinho de 1500km para visitá-los, ao menos uma vez por ano. Puxar o freio de emergência e viver o ritmo absurdamente diferente daquela cidade. É como se eu deixasse o mundo real para viver, mesmo que por alguns dias, uma espécie de conto de fadas. Quando não estamos na casa de um dos meus dezessete tios – onze irmãos do meu pai (eram doze) e seis da minha mãe – ou de algum primos que já casou, descansamos na casa da vovó (mãe da mamãe), na pacata Cohab Fragata, bairro que lembra uma cidade cenográfica.

Em qualquer das duas situações, talvez eu tivesse me casado com a Íris.

Sempre tive o privilégio de comemorar a virada do ano com muito churrasco e rojões ao lado de parentes, amigos – e amigas, claro – conquistados graças à proximidade das casas da velha cohab. Em 1990, a vizinhança recebeu vizinhos novos. Uma família que vinha de Canguçu, terra cheia de índio grosso barbaridade, como se diz por lá. O casal tinha duas filhas. A mais velha tratou de enturmar a molecada no dia do aniversário: um 27 de dezembro.

O enorme quintal da casa estava tomado pela gauchada naquela tarde. Além dos meus primos, muitos garotos da rua eu já conhecia. A grande maioria, no entanto, eram parentes da aniversariante – ou seja, um bando de desconhecidos. Não levou muito tempo para que eu chamasse a atenção: era o único a me dirigir às pessoas usando o pronome “você” ao invés de “tu”.

Mas o chamariz aconteceu num episódio insólito: após tomar todo o meu refrigerante, amassei e joguei fora meu copo descartável. Como se faz em qualquer lugar do mundo. Menos ali. Não demorou para que a dona da casa viesse em minha direção, enfurecida: “de onde foi que tu saíste, guri? Por que tu acabasse de jogar um copo fora!”. Fiquei até com medo de tomar mais refrigerante: os copos deviam ser os mesmos das últimas três festas…

O paulista que amassou um copo descartável virou presença constante em todos os 27 de dezembro dos anos 90. E foi graças a eterna amizade com essa aniversariante que eu acabei conhecendo minha primeira namorada. Que infelizmente não era a Íris, prima dessa amiga capricorniana. Claro que eu não sabia, mas só fui reparar nela alguns anos depois, mesmo com ela sempre ali, em todas as festinhas.

Ela era magra, tinha a pele e os olhos bem claros e longos cabelos loiros e ondulados. Mas o que chamava mesmo a atenção era o sotaque: Qualquer palavra proferida por ela ganhava uma musicalidade indescritível. E ela já havia sentido a minha presença desde aquela tarde de 1990. Coisa que descobri tomando chimarrão com ela e a família, em um dia de janeiro num ano seguinte qualquer – tempo suficiente para a minha primeira namoradinha já ter se casado…

O sol foi embora e nós continuamos ali, proseando. Ela fazia curso técnico em agropecuária no tradicional CAVG. Alimentava o sonho de cursar agronomia na Ufpel e aplicar seu conhecimento nas lavouras de todo o Estado. Ela quis saber por que um paulistano estava naquele momento segurando uma cuia e falando da vida naquele lugar. Convidou para uma festinha numa danceteria. Chamava-se Apocalipse, ficava ao lado da pizzaria Bella Nápoli, numa das ruas que cruzam a Bento Gonçalves.

Não recusei o convite e aproveitei bem a noite – uma das poucas em que usei o verbo “dançar” sem a conotação pejorativa. Foi a única vez que pude ficar mais de cinco horas ao lado da Íris. Aproveitei bem, como se soubéssemos que não iríamos nos ver de novo tão cedo. Saímos por volta das cinco da manhã e seguimos de táxi até a deserta e ainda escura cohab. Nem me despedi como gostaria antes de voltar para São Paulo.

Só pude reencontrá-la na virada de 97 para 98, tempo de sobra para que o meu coração passasse por mais naufrágios. A cena de sempre repete: champanhe, churrasco, rojões e abraços, acompanhadas de felicitações e desejos de bom princípio. Num relance, dirigi o olhar para a casa da vizinha. E a Íris não parava de tirar os olhos de mim. Usava um vestido branco, como se a luz do luar estivesse ali no chão. Sorria cada vez mais à medida em que eu chegava perto.

Ao chegar, abri os braços e disse a frase mais original que poderia citar naquele momento: feliz ano novo. Ela continuou sorrindo, mas não usou palavras para agradecer. Preferiu retribuir o gesto com um abraço delicioso, que parecia ter durado até 1999.

Acredite: este foi o nosso último encontro.

Mas não foi a última em que ela deu notícias. Pouco antes de embarcar para a realidade paulistana, recebi um envelope amarelo. Só fui abrir em plena BR-116, já em Camaquã. Aqueles corações desenhados em uma folha de almaço pela metade e as palavras escritas em vermelho delatavam o conteúdo antes mesmo das duas primeiras palavras: “meu amor”.

O que vi na sequência foi uma declaração apaixonada de alguém que foi conquistada pela minha presença em um dia de sua vida há muitos anos e por um abraço de feliz ano novo. Íris cobrava uma resposta: dizia que seria fiel eternamente e que se submeteria a um terrível controle, esperando ansiosamente o meu retorno a cada final de ano. Uma prova de amor que jamais vi igual.

Qualquer ser humano seria incapaz de resistir. Se eu tivesse coragem, eu diria para o meu pai dar a volta no carro e voltar aqueles cento e poucos quilômetros. Ou pediria para descer, voltaria para Pelotas de ônibus e viveria para sempre nos braços da Íris, a mulher que mais se apaixonou por mim até hoje.

E o que seria da minha vida, aquela que estava me aguardando em São Paulo? E se eu optasse pelo conto de fadas? Ora, fada é o cacete. Estaria trocando uma realidade por outra, desconhecida. Era o cenário das minhas melhores histórias, mas sem as mesmas perspectivas.

Tanto nessa quanto na história da primeira namoradinha, a escala não está em horas, minutos, segundos. Estou sempre falando em anos. Graças a primeira história que quase deu certo na minha vida, descobri o quanto é difícil amar alguém ajustando o relógio para funcionar em meses. E mesmo sendo outra pessoa, não estava predisposto a viver algo parecido de novo. Não naquele momento.

Já em casa, num doloroso processo de desintoxicação, abri o write do meu windows 3.1 e escrevi a minha resposta. Usei basicamente as seguintes palavras: conto de fadas, realidade, distância, tempo, razão, futuro, impossível, etc. Tudo mesclado com muita sinceridade e carinho – não exatamente como ela queria, mas o suficiente para não magoá-la demais. Imprimi na velha matricial da Citizen e envelopei. Como não tinha o endereço da Íris, mandei a carta para a prima, pedindo a gentileza de entregá-la sem abrir.

Meses depois, o carteiro trouxe a resposta. Era mais ou menos assim:

"Pelotas, 11 de março de 1998

Oi Dé! Como vai?

Quero começar te pedindo desculpas pela carta que chegou a ti. Sabe, lendo a tua resposta senti muito a sua falta e percebi o quanto és valioso. Também já sofri muito com as minhas experiências.

Quero dividir com você a que mais me marcou. Quando tinha 15 anos, conheci um guri numa festa. Naquela noite conversamos muito, até trocamos telefones. Até que começamos a namorar. Cheguei a ser apresentado à família dele - acredita que a sobrinha dele me chamava de tia?

Ele sempre dizia que me amava, que eu era a vida dele. Passamos dois anos juntos, e numa noite, ele queria... Ah, você sabe, né? Eu tinha 17, disse que era muito nova e que não estava preparada.

Sabe o que ele me disse? Me esquece, e nunca mais fala comigo!

Imagine, aquilo me deixou decepcionada... Comecei a agir de uma maneira tão fria com as pessoas, todos achavam que eu não tinha sentimentos. Já estava ficando convencida disso.

Mas graças a ti, acho que mudei um pouquinho... Já tive até coragem de dizer que estou apaixonada por ti! Agora que tudo já passou, penso que é bom passarmos por situações ruins, dessa maneira a gente começa a enxergar as coisas como elas realmente são.

Bom, disse que tive coragem de te dizer que estou apaixonada... E ainda estou. Continuo te achando perfeito e te admirando mais ainda. Estou tentando achar uma palavra pra te definir, mas nem as mais belas palavras retiradas das mais lindas poesias não são nada perto da pessoa maravilhosa que tu és.

Quanto a distância, ela pode separar dois corpos, mas jamais dois corações que se gostam. As pessoas se tornam bonitas ou feias pelas suas atitudes, e você é a pessoa mais linda que eu já conheci. Fique tranquilo: tu jamais me magoaste.

Agradeço demais a tua sinceridade, obrigado por tu existir, sem você o mundo não teria graça. Tenho certeza de que a tua sinceridade, junto com as tuas outras qualidades, vai conquistar o mundo como tu me conquistasse. E nunca deixe de acreditar em uma paixão: quando ela demora, é porque está adormecendo nos braços da esperança.

Desculpe por ter entrado na sua vida sem pedir licença...

Um beijo de quem te adora,

Íris."

Vez ou outra releio essa carta e questiono se o meu estágio atual de “eu uma pedra” não é castigo por ter ignorado essa chance. E é estranho terminar história dizendo simplesmente que, atualmente, a Íris é uma mulher casada, assim como a prima dela, minhas primas e todas as moças que conheci em Pelotas nesses últimos anos. Tenho certeza de que ela era a pessoa certa. Pena que a hora e o lugar não eram.

(Postado em 17/06/2005. Digamos que esse texto contribuiu para que eu voltasse a comemorar o Dia dos Namorados…)

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