A garota normal da capa tem perfil no orkut!

Se existe uma coisa nessa vida que já me deixa conformado é saber que eu nunca vou me envolver com essas mulheres consideradas primordialmente como “padrões de beleza”. Mais distantes ainda são as modelos que estampam revistas masculinas e sites recheados de fotos boazudas. “Mas claro, não consegue nada nem com as feiosinhas, que esperança”, diria algum espírito de porco.

ela não parece gordinha?Evidentemente, a carne é fraca, e vez ou outra eu tenho alguma recaída. Aconteceu no mês passado, quando esbarrei na estranha capa da revista Sexy. A pergunta foi imediata, e extremamente injusta: “quem é essa gordinha esquisita?”. Definitivamente, quem escolheu a foto queria ver a publicação encalhar.

Mas esse estranhamento inicial só fez aumentar minha curiosidade. Afinal, não era a revista que trazia a desejada rainha de bateria, mas sim uma moça que pouca gente conhece. E em seu maior destaque, a imagem, digamos, de uma pessoa normal. Dessas que frequentam a mesma balada que você e podem, de repente, se aproximar para conversar.

Uma nova navegada e lá está ela outra vez, em uma notinha do portal Vida e Saúde do Terra. Lá está novamente o discurso da “mulher normal”, que não se importa muito com a beleza – apesar de ter feito implante de silicone, motivado pelo convite da revista. Detalhes na galeria de fotos revelam coisinhas que não esbarram nos rigorosos padrões sociais: dobrinha na barriga, cabelos despenteados, pelos descoloridos nos braços e nas pernas…

Uma mulher normal, com características naturais, oras! Bem, não é exatamente “normal”. Ela é linda, vai. O que é aquele sorriso… Ai, ai.

Hora de saber um pouco mais sobre a lindinha da vez. O nome dela é Michelle Gemelli. Ela é de 1981 (quase 26 anos), é canceriana e nasceu em Porto Alegre (aaahhh, as gaúchas!). Torce para o Grêmio, mas o que importa é ter saúde. Atualmente, é a maleta número 16 do programa Topa ou Não Topa. E antes de mostrar suas curvas na Sexy, já tinha aparecido no The Girl, do Terra e no Bella da Semana – ambos sem seu novo par de novidades.

Ainda sob seu efeito inebriante, minha recaída chegou ao seu limite máximo, graças à pretensa (e falsa) proximidade que a Internet proporciona. Entrei na busca por nomes do orkut e tasquei “michelle gemelli”. Deu certo. Era o único resultado, e tinha toda pinta de autêntico – claro, qualquer iludido acredita apenas naquilo que deseja ver.

Parti para o scrapbook, espécie de “janela para o mundo exterior” onde qualquer um pode passar na frente e gritar qualquer bobagem. Como esperado, para cada mensagem bonitinha de uma amiga ou conhecida, dezenas de poetas (ou “poeteiros”, anasalado mesmo) desfilavam sua sabedoria e cavalheirismo: congratulações, elogios, pedidos singelos (“me add aí, gata”), entre muitas bizarrices.

Estava ali, no fundo do poço, ao lado daqueles cururus hormonalmente afetados, diante de uma janelinha onde, no outro lado, uma modelo em busca de seu espaço estava nem aí com tantos desocupados. No máximo, dá uma passadinha, acena para um e outro e segue tocando a sua vida. Pois bem, já devidamente rebaixado ao patamar de “homem qualquer”, libertei meu último preconceito e registrei um scrap simpático.

“Oi, Michelle. Sou mais um que nunca tinha ouvido falar em você até descobrir a revista Sexy. Definitivamente, as gaúchas são as mulheres mais lindas do planeta. Parabéns pelo seu trabalho, e muito sucesso em sua carreira!”

Pronto. Agora é hora de acordar e repetir o mesmo procedimento pós-delírio. Imaginar como ela vai estar daqui a dez, vinte anos, sem o impacto destes atributos todos. Lembrar que, em dez ou vinte anos, quem vai estar ao seu lado é alguém que, acima de tudo, ature os meus defeitos, saiba equilibrar suas atitudes e que tenha respeito com sua própria intimidade. Mais vale uma ajeitadinha que goste de mim do que a bonitona da revista, cobiçada por milhares de marmanjos.

(E já posso ver o comentário do Inagaki: “pena que faltaram imagens”).

André Marmota pode perder um grande amor, um amigo de longa data ou uma oportunidade de trabalho... Mas não perde a piada infame. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (10)

  1. hehe, e eu que fotografo várias dessas garotas normais, porém muito bonitas e tudo tem que ficar no campo profissional. Tem que ter nervos de aço.

  2. Desde pequenininho, quando me vi capaz de ter uma ereção, sempre fiquei com um pé atrás pra elogiar mulheres lindas, maravilhosas, inatingíveis, perfeitas, sensacionais, “incomíveis”, distantes pra dedéu. Essa coisa de ser mais um que elogia, gotícula discreta num oceano de babação sem fim, nunca me atraiu. No mais, essas mulheres da capa param na minha retina, nada mais. E que os Mansurs da vida cuidem delas…

    Mas se, de alguma forma, o seu scrap produziu algo de bom em você, feito um desabafo de alguém encantado, tá valendo… Um sorrisinho ao menos ela deve ter dado… :)

    Abraços!

  3. Ótimo texto, cumpadi. E meu xará Sena completou o serviço, tornando dispensável meu comentário sobre as imagens. :D

  4. Também achei bizarro o comentário “gordinha esquisita”. Começo a desconfiar que o amigo anda exigente demais, eu hein!!

  5. São essas mulheres normais que me fazem ficar apaixonado. As muito perfeitas não tem graça…até pq elas se acham deusas e transgridem e a barreira da humildade.

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