Roteiro lírico e saudoso por Santiago: o complemento

Este é um dia cheio de saudade! Um meme em forma de “oooeeeaaa” transporta boa parte de nós para o Mundial dos intermináveis gols da Alemanha, que começava exatamente há um ano. Agora, em meio a toda sorte de futricas embaixo do tapete da Fifa, tentam empurrar a Copa América, espécie de “Campeonato Paulista da Gran Chicânia” como “aquele evento para celebrarmos o futebol outra vez”…

De verdade? O melhor desta Copa América é o Chile. E tome saudade: ano passado, atendendo a um pedido do Cassio Politi, viajei por Santiago a partir de sinapses nostálgicas. Pois ele foi, passeou pelos arredores, voltou e registrou o que viu – e de uma forma sensacional! Vamos voltar para Santiago?

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Foi muita gentileza do André publicar um post para me dar dicas de viagem a Santiago. Usei o texto dele aliado a um pequeno roteiro que encontrei num outro blog para montar meu itinerário de viagem. Como forma de agradecimento, contribuo com um post complementar neste blog — que, sem demagogia alguma, é, há alguns anos, leitura recorrente e prazerosa para mim.

Museu de História Natural
Acrescente ao roteiro que o André sugeriu esta atração. Desde que você seja fã de NatGeo, Discovery Channel e afins, é claro. No Museu de História Natural, você vai encontrar partes de ossadas de animais pré-históricos, o esqueleto de uma baleia e um interessante painel que mostra como surgiu o mito do ciclope. O painel explica que crânios de elefantes foram encontrados por gregos, que não conheciam o animal, e a partir do fóssil desenharam um ser humano agigantado de um olho só.

O museu fica num parque na estação de metrô Quinta Normal. O parque grande e calmo merece uma caminhada tranquila.

Curta um terremoto
Desembarquei no Chile no dia 4 de abril, poucos dias depois de um terremoto ter provocado a morte de sete pessoas no Norte do país. Busquei previamente informações em redes sociais e com pessoas locais sobre riscos que eu poderia correr em Santiago. A resposta unânime: a cidade está preparada para tremores de até 9 ou 10 pontos na escala Richter. Balança, mas não cai.

Era minha primeira noite no 10º andar do Hotel Galerías, no centro da cidade. Peguei no somo umas 11 da noite. Meia hora depois, minha esposa, Alessandra, e eu acordamos com tudo balançando. Não dá exatamente medo, pois você já sabe que aquilo é normal por ali, mas na hora nos falta noção da gravidade daquele chacoalho. Será que está dentro da normalidade ou este é um dos bravos?

A dúvida aumentou quando ouvimos uma agitação do lado de fora do quarto. Será que estão evacuando o hotel? Que nada. Era só gente do lado de fora de seus quartos com a mesma dúvida que nós. A maioria, estrangeiros. Os chilenos, nem tchum pro tremor. Fomos dormir e no dia seguinte soubemos que foi um terremoto de 5,8 pontos com duração de pouco mais de um minuto. Sinceramente, achei legal pacas.


(Tremor foi destaque no G1)

Civilidade
Fui ao Chile para correr a Maratona de Santiago. Percorrer 42 km correndo pelas ruas é um programa especial, pois permite passar por alguns bairros mais populares e outros de elite que normalmente não conhecemos num roteiro turístico. Mas o que chamou a atenção na prova foi o comportamento dos chilenos em dois momentos.

O primeiro foi pouco antes da largada, em frente ao Palacio de la Moneda. O locutor pediu um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do terremoto no Norte. Fiquei impressionado com o respeito. Por 60 segundos, em pleno centro da cidade, 25 mil pessoas fizeram o mais absoluto silêncio. Uma reverência que não se vê com frequência em certames esportivos no Brasil, infelizmente.

O outro momento se deu no percurso da prova. A quantidade de pessoas que foram às ruas incentivar os atletas amadores era enorme. Mais do que a quantidade, chama a atenção o comportamento. Eram muitos gritos de incentivo. Assim como europeus e norte-americanos, os chilenos entendem que apoiar uma prova de rua como essa é uma declaração de amor ao esporte e à cidade.

No, gracias
Por um lado, o chileno é educado, amigável e civilizado. Por outro, fomenta um hábito que testa a paciência. Você é abordado o tempo todo por vendedor. Na rua, em frente à vitrine, na praça de alimentação, no aeroporto: sempre tem alguém querendo te vender alguma coisa. Menos mal que a abordagem seja cordial e fácil de se dispensar. Um “no, gracias” resolve a questão.

Banheiros públicos
Se você estiver no Paseo Ahumada ou em outra rua fechada para pedestres no Centro, essa será a hora certa para ir ao banheiro. Há vários baños públicos subterrâneos. Mas atenção: tenha moedas no bolso, pois eles são pagos. O ingresso custava 400 pesos (mais ou menos R$ 2,00). Limpos e organizados, lembram banheiros de shoppings. Um deles tinha até um cartaz com oferta de emprego para faxineiro. O salário: R$ 1.500,00 por mês.

Outra curiosidade da cidade: tem cachorro de rua para todo lado. E são sempre vira-latas grandes, pacíficos e incrivelmente bonitos, dando a impressão de bem cuidados. O amigo canino da foto abaixo, por exemplo, faz companhia ao guarda que cuida do Palácio La Moneda, a sede do governo.

Preços
Não se iluda: o Chile não é um lugar barato, como temos ultimamente percebido outras capitais sul-americanas, como Buenos Aires é Montevidéu. Mas também não chega a ser um país caro. Um almoço num bom restaurante custa entre R$ 100,00 e R$ 120,00 para duas pessoas. Mas alguns produtos são um pouco mais caros que no Brasil. Água mineral e chocolate, por exemplo.

Vinhos
Se você gosta de vinho, compre. Se não gosta, compre também. É sempre um ótimo presente. Por razões óbvias, vinhos no Chile são baratos. Algumas marcas chegam a custar três ou quatro vezes menos que no Brasil. Claro, algumas opções terão melhor oferta do que outras. É questão de levar uma lista para poder comparar os preços. De toda forma, compre em supermercados. A rede Jumbo, uma espécie de Pão de Açúcar local, é uma ótima opção.

Vinícola
Se você gosta de vinho, visite uma vinícola. Acho que já disse algo parecido no parágrafo anterior, mas, se você não gosta, visite também. É bem interessante. No caminho de Santiago para Valparaíso, há uma das rotas do vinho. Recomendo a Viña Indomita, uma aconchegante construção que produz 1 milhão de litros por ano. Você pode fazer um tour pago, com direito a degustação, ou simplesmente conhecer as instalações. Além de comprar algumas garrafas, é claro.

Dizem que a vinícola da Concha y Toro é a mais visitada por brasileiros e, por isso, a mais turística. Preferi uma menos badalada, por me parecer mais legítima. Mas isso é uma opção bastante pessoal.

Aluguel de carro
É possível ir de Santiago ao litoral com excursão, ônibus de linha ou carro alugado. Esta foi a minha opção. A locação é bem mais cara do no Brasil ou nos Estados Unidos. A diária de um veículo intermediário sai por R$ 150,00 a R$ 200,00. A vantagem é a fácil locomoção entre Valparaíso e Viña del Mar, que são cidades vizinhas. Mas é surpreendente o trânsito nos horários de pico. Levei mais de 40 minutos para fazer um percurso de praia a praia que, sem tráfego carregado, levaria menos de 15 minutos.

La Sebastiana
Uma grande atração histórica de Valparaíso é La Sebastiana, a casa onde Pablo Neruda morou durante boa parte de sua vida. É uma construção de cinco andares que hoje abriga um museu, a exemplo de La Chascona, que o André já descreveu. Além de curiosa e com uma vista ampla do mar, a casa faz uma imersão na vida do poeta. O audioguide em Português retrata deliciosamente os detalhes do cotidiano de Neruda.

É inevitável imaginar o Prêmio Nobel subindo de um andar para outro na sua rotina de escritor, que era enriquecida por almoços e jantares sempre na companhia de amigos ― muito dos quais, figuras notáveis. A história daquele lugar inspirou Vinícius de Moraes a compor “A Casa”, aquela música que você certamente conhece (era uma casa muito engraçada…).

Museu da Marinha
Chegando a Valparaíso, suba os morros, a pé ou por ascensores, que são pequenos bondes morro acima. É impressionante a semelhança das vielas com as favelas no Rio. A diferença é que não são lugares miseráveis, tampouco violentos.

A mais ou menos 1 km da Plaza Sotomayor, a mais importante de Valparaíso, você encontrará, no alto do morro, o Museu Maritmo Nacional. As peças navais lá expostas são interessantes, mas o que faz a visita valer a pena é uma das cápsulas construídas para resgatar os 33 trabalhadores da mina San Jose, em 2010. É permitido não apenas fotografar a cápsula, mas entrar nela.

Os altos e baixos da topografia de Valpo ― como a cidade é carinhosamente apelidada ― funcionam como uma proteção natural contra uma ameaça permanente: os tsunamis. Não faltam placas pela cidade indicando rotas de fuga no caso do risco de ondas gigantes estarem a caminho. O alto do morro é o lugar seguro.

O Pacífico
Valparaíso abriga as atrações históricas e culturais mais interessantes, mas a cidade mais convidativa para hospedagem e programas noturnos é a vizinha Viña del Mar. Na avenida San Martín, fica o cassino do Hotel del Mar e, bem em frente, o restaurante italiano Divino Pecado, que faz jus ao nome. Ali por perto, há todo tipo de restaurante: comida latina, peruana, argentina, fast food, cantinas.

O grande espetáculo da cidade, no entanto, é o pôr do Sol. Virado para o leste, o litoral brasileiro vê o Sol nascer no mar. De cara para o oeste, as praias chilenas veem o Sol mergulhar no Pacífico. Não é difícil encontrar um lugar com vista privilegiada do horizonte no fim de uma tarde ensolarada. A praia da Reñaca talvez seja a opção mais charmosa.

Se pernoitar em Viña, experimente tirar o sapato e colocar os pés no mar. Não por superstição, mas para descobrir que aquele oceano, de Pacífico, só tem o nome. É bravo e gelado. Não sou nenhum lobo do mar, mas nasci e cresci em Santos. Já pratiquei mergulho em mar aberto, no Índico e em outros cantos por aí. Nunca imaginei que uma praia aparentemente balneária pudesse ser banhada por um mar tão gelado.

Fiquei por alguns minutos molhando os pés Playa Los Cañones e não demorei a sentir aquela dor típica de quando colocamos a mão num balde de gelo que resfria a garrafa de cerveja no boteco. Ainda estou tentando calcular quantos minutos uma pessoa sobreviveria imersa naquela água verde falsamente convidativa e suponho que não seja muito tempo. Para se ter uma ideia, em nossa caminhada demos de cara com o cadáver de um leão marinho, animal que gosta de dividir mares frios com focas e pinguins e que, não por acaso, pulula por ali.

Você verá muita propaganda turística do Castelo Wulff, uma simpática construção à beira-mar que, anos atrás, por pouco não foi demolida para dar lugar a modernos condomínios. O governo a comprou antes que fosse ao chão. O lugar é bonito, fica bem perto do Cassino e dos restaurantes, mas não tem uma atração que possamos chamar de marcante. Vale uma visita rápida.

Junk content
Sendo este o blog do André, eu não poderia terminar sem citar coisas pitorescas. No começo da viagem, quando caminhava pelas ruas da cidade, dei de cara com o bar da foto abaixo.

Impossível não pensar que Monica Lewinsky talvez tenha sido a consultora do estabelecimento. Conhecimento de causa, ela seguramente tem.

Assim que voltei de viagem, tive um encontro com o amigo Mauro Beting, jornalista palmeirense de corpo e alma, que gentilmente atendeu um convite para comparecer a um evento coordenado por mim. Enviei a foto abaixo a ele, mas a publico aqui também. É a Coca-Cola verde.

Em tempo: sou corintiano, sem nenhum fanatismo, é verdade. Mas sou corintiano. Isso não influenciou meu paladar: o sabor da Coca verde é simplesmente horrível.

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O convite do texto original permanece rigorosamente o mesmo: como levei algum tempo para postar esse, talvez já tenha espaço para novas (e atualizadas) sugestões. Se estiver a caminho da Copa América e encontrar algo legal, compartilhe conosco aqui!

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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