Não pense em JUBIRULEIBE

Pelotas (RS) – Num divã, o paciente compartilha sua demanda ao analista.

– Então… Preciso desabafar. Ando angustiado.
– Conte tudo.
– Eu sei que já devia ter esquecido. Segui em frente na vida. Sinto que está tudo em ordem. Mas…
– Tem algo perturbando sua mente…
– Pois então. Não consigo tirar JUBIRULEIBE da cabeça!
– Ah, mas é esperado. Foi isso que te trouxe aqui, não?
– Tá, mas isso foi há muito tempo. Mas parece que foi ontem. É impressionante. Logo que eu acordo, sem muito esforço, aparece: JUBIRULEIBE.
– Mmmhhh…
– Hoje mesmo, veja. Antes de vir, passei a manhã envolvido em tarefas e urgências. Foi só parar um instante para relaxar, na hora do banho, quando… JUBIRULEIBE! Puuuxa vida.
– Já experimentou encaixotar, guardar, livrar-se de coisas que remetam a essa lembrança?
– Não é o bastante. Prefiro enxergar JUBIRULEIBE nos meus lugares favoritos a deixar de frequentá-los. Com música é igual. No carro, ouvindo rádio… O locutor anuncia alguma banda que puxa uma situação passada e… Adivinha.
– Bem, contanto que isso não te impeça de fazer coisas…
– Ah, acho que não… Mas queria que a voz que ecoa em mim pudesse gritar “não pense em JUBIRULEIBE” e entender de uma vez…
– Não pense em uma maçã.
– Droga.
– Não pense em um elefante rosa com bolinhas azuis.
– Eeeiii! Não faça isso!
– Não pense em uma velha pelada.
– Cheeegaaa! Já entendi! E o pior é que estou visualizando a véia no elefante num campo de macieiras e JUBIRULEIBE.
– Veja. Esta é uma experiência clássica. Wegner reuniu um grupo de pessoas e pediu para não pensarem em um urso branco durante cinco minutos. Se isso acontecesse durante uma conversa aleatória, deviam tocar um sininho. Caso eles pensassem assim mesmo no animal, deviam tocar um sininho cada vez que isso acontecesse. Alguns chegaram a tocar 15 vezes!
– Nossa!
– Todos perdmos controle dos pensamentos. Já ouviu falar no “jogo”?
– Não…
– É uma proposição tão antiga quanto o urso branco. Basicamente, possui apenas uma regra: você não pode pensar no jogo. Caso isso aconteça, inevitavelmente, você perde.
– Quer dizer que… Mal entrei num jogo que sequer imaginava e já perdi?
– Perdeu. JUBIRULEIBE pra você.
– Humpf.
– Tenha calma. Você não devia se martirizar tanto. O ser humano percorre caminhos que ainda desconhecemos. Não faz muito tempo, imaginávamos que a “mente” fosse algo independente da nossa cabeça. Como uma alma, sabe? Hoje há quem discuta relações entre máquinas e cérebros, sem interfaces. É fascinante.
– Sim, mas e daí?
– Ocorre que “brilho eterno de uma mente sem lembranças”, onde um sujeito paga para um médico remover quimicamente a memória de alguém, por exemplo, é meramente uma ficção. Pode-se pensar em medicamentos, há um sem número de viciados em nootrópicos, porém isso não representa uma fração do que ainda podemos chegar.
– Preciso dizer que essa conversa não está funcionando. Eu fecho os olhos e lá estão neurônios, sinapses e JUBIRULEIBE.
– Olha, vamos tentar um recurso aqui. De repente resolve. Observe o movimento das minhas mãos. Isso. Lentamente. Agora feche os olhos. Relaxe. Bem dormindo, bem dormindo. Procure baixar a frequência de seus pensamentos. Assim. Agora vou contar até três e você sentirá livre. E vai deixar que se vá qualquer coisa ligada a JUBIRULEIBE. Liberte. Deixe JUBIRULEIBE ir.
– …
– Um. Dois. Três. Pronto, acorde.
– Hein? Ahn? Ei! Eu dormi!
– Como se sente?
– Ah… Normal, acho. Quer dizer…
– O que foi?
– Gozado… É como se eu tivesse ignorado um compromisso… Só um instantinho, deixe eu abrir a agenda do celular.
– Calma, deixe-me te ajud…
– AAAAAAA! JUBIRULEEEEIBEEE!!! PUT AI KEEP ARE IOU!!! JUBIRULEEEEEEEIBEEEEE ÇOCORR!!!
– Mas… Mas… Você anotou JUBIRULEIBE na agenda! Ora! Só posso concluir que, no fundo, você não quer tirar JUBIRULEIBE da cabeça!
– Será!?
– Sério. Pode ir agora. Mas pense bem. Por que mesmo você veio aqui? Para esquecer? Lembrar? Como se fosse um balcão de boteco?
– Eu vou, sim. Mas volto semana que vem.
– Estou esperando. Já anotei aqui, inclusive, qual será a nossa pauta.

***

P.S. 1: Quando pensei nessa bobagem, pedi ajuda ao Trotta: “vem cá, diga uma palavra aí que não significa nada”. Surgiram algumas ideias num brainstorming. A melhor, disparado, foi BIRULEIBE. Fiquei triste, no entanto, quando joguei o termo no Google e descobri nomes de espeluncas e um MC fanqueiro, cujo grande sucesso chama-se “Treme a Tabaca”.

P.S. 2: “Meu bem, como é mesmo que você chama a minha amiga?”, perguntou a Garotinha Ruiva, minutos depois do bate-papo acima. A amiga tem um sobrenome forte e elegante, mas que jamais vou lembrar. “Globetrotters? Flipsflops? Hocuspocus? Janistraquis?”. Enfim, é com J. “Uia! Talvez a gente possa melhorar a ideia do Trotta com uma sílaba extra!”, concluí, enquanto testava o “jajeji” de ponta a ponta.

P.S. 3: É o Inagaki que usa P.S. no fim dos posts.

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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