Carta para Jojô

Minha filha Joana,

É engraçado começar a escrever pensando em você assim, como Joana. Sua mãe descobriu que nossa casa terá mais um taurino há poucas semanas e tudo o que temos é uma sequência de palpites. Fiz um cálculo infalível, pinçado no Almanaque do Pensamento, que relaciona a aparição da lua nova e o aniversário da genitora. É batata. Não tão certo, porém, quanto a visão da sua avó, revelada assim que telefonei para contar a boa nova: “é lógico que vai ser menina, eu sonhei com ela por três noites seguidas”.Ainda assim, ainda tenho 50% de chances de ser ridicularizado no futuro – ou me ver obrigado a pagar um psicanalista pra ti. De toda forma, adianto: tanto eu quanto sua mãe vamos deixar você decidir essa questão de gênero quando achar que deve.

Sabe, lembrei agora de uma cena antiga. Há muitos anos, passeava com um amigo em uma capital europeia descolada quando, em um parque, vimos um casal muito novinho demonstrando todo o seu amor em público. Meu colega de viagem virou-se e perguntou: “e se fosse a sua filha?”. Eram tempos em que ficava impressionado com meninas fugindo de casa, tragédias alcoólicas em cruzeiros de formatura, toda sorte de violência contra mulheres…

Já ouvi alguém dizer que “o mundo não é para amadores” e, realmente, a humanidade e sua falta de respeito não ajudam muito. Tenho um grande amigo que costuma lamentar o fato de que a maioria de nós, seres humanos, somos incapazes de aprender com as lições da vida. Por conta disso, repetimos nossos erros de forma cíclica, repetida. Seja em nossos relacionamentos interpessoais, no tratamento com outros seres, na nossa relação com a natureza, com o planeta.

Tem uma norte-americana, professora do MIT, chamada Sherry Turkle. Em um de seus livros mais interessantes, ela argumenta que nosso mundo atual, cercado por dispositivos de comunicação ávidos por ágeis respostas, revela um paradoxo: enquanto a tecnologia propõe atitudes mais simples e reações instantâneas, o volume e velocidade de demandas reduz nosso tempo livre para sentar e refletir sobre temas complexos. Faz sentido, não?

(Seu pai é bobo assim mesmo, Joana. Teve uma vez que fui com sua mãe em uma festinha de criança com sua mãe. Em algum momento eles foram brincar de encostar uma bola na orelha e gritar alguma bobagem. E eu tentei explicar lindamente que as ondas sonoras se propagam mais rápido em meios sólidos e por isso era divertido. Sua mãe balançou a cabeça e pediu para eu ficar quieto).

Enfim, nada disso importa pois a sensação de que vai dar tudo lindamente certo é forte. Afinal, saiba que você foi amada e desejada muito antes de ser nomeada. Lembro quando fomos despertados, sua mãe e eu, por um daqueles telejornais patéticos cheios de apresentadores fazendo caretas e notícias ao estilo “hábitos de pseudo-celebridades” mescladas com o bom e velho “provocando o terror”. Nos intervalos, uma insistente propaganda de uma solução a base de iodo, chamava-se Laquésia (ou algo assim). E brincávamos: “nossa filha vai se chamar Laquésia!”, Nas manhãs seguintes de tortura, chegávamos a dar “bom dia, filha” quando o comercial era exibido.

Agora estou contando os dias (enquanto vejo sua mãe enjoar e dormir pelos cantos a qualquer instante) para te conhecer pessoalmente e te dizer bom dia olhando nos olhos. Ninar você enquanto assistimos ao Neil deGrasse Tyson explicar a vida, o universo e tudo o mais. Ou viajar na TARDIS com o Doctor da BBC e suas acompanhantes. Quem sabe a gente assista aos melhores lances de um jogo do Internacional… Sua mãe e eu vamos te entupir com beijos, abraços e todos os nossos gostos e desejos. Livros, músicas, lugares, manias.

Talvez esta seja a parte divertida. Mas seu pai é um neurótico obsessivo, capaz de escrever uma carta dessas e antecipar preocupações mais loucas que as da sua mãe — acredita que ela ouviu de um médico que “nem estava grávida direito ainda” e devia se calar só por questioná-lo sobre parto humanizado? Alguns dos seus tios mais queridos avaliam suas decisões com calculadoras: argumentam que “uma criança custa alguns milhares de dinheiros a longo prazo e que podem ser investidos em outras lacunas da vida”. Então fico imaginando até quando uma carreira envolvendo uma prática desvalorizada, somada a uma profissão em declínio, poderá nos levar… Enfim, talvez sejamos dois exagerados, antecipando coisas que talvez a gente descubra juntos. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de fazer as coisas do jeito realista.

Bom, o lado neurótico do seu pai entende que é preciso se preparar, mas tudo tem limite. A começar com alguns livros abandonados nas primeiras páginas. O primeiro chama-se “Pais Grávidos”, é de um psicólogo britânico e está cheio de regras sobre como os homens devem lidar com seus sentimentos enquanto acompanham o périplo das mulheres. Muito chato. O outro é de uma jornalista, Pamela Druckerman, que alega: “Crianças Francesas Não Fazem Manha”. Ela alega que os pais franceses conseguem domar o enfant que insiste em querer tudo quando quer, a qualquer hora, e fazer birra quando são contrariados. Ora, como se os pais daquele país fossem especiais! Se autoridade fizesse diferença, todo filho de militar seria um exemplo a ser seguido! E eu não quero que você cresça como se estivesse nesse lugar sem graça.

Caramba, filha, já consigo vislumbrar um universo de clichês, pautados no senso comum, em cima de ti. Algumas fazem sentido, outras não… Seja humilde. Idade é sinal de sabedoria. Sorria para todo mundo. Diga bom dia, até logo, obrigado. Fuja do jornalismo. Coma verduras. Leve o casaquinho. Aprenda com os erros. Isso não serve para meninas. Use filtro solar. Divirta-se. Não vote mais no PT. Leia tudo o que puder. Não use drogas. Diga tudo o que sente. Estute o seu coração. O que é teu está guardado. Sua mãe está sempre certa.

(Essa última, sobre a sua mãe, é a mais sólida e verdadeira entre todas).

Como tem gente martelando regras, não? Meu palpite: todo mundo idealiza a família perfeita, procurando dar conta de construir modelos perfeitos a qualquer preço. É só ir à rua e constatar carrinhos de bebê feitos com material leve e seguro contendo firulas como travel system e valendo dois meses de aluguel da casa! Ou ainda aquele tapetinho colorido para o quarto “para seu filho aprender desde muito cedo as bandeiras de todo o mundo”… Ridículos! Tenho para mim que, por um bom tempo, você vai precisar basicamente de amor e peito. Depois vamos ver como vai se desenvolver essa dialética enquanto, ao mesmo tempo, a gente se dá conta que não somos perfeitos.

Mas olha, já estou convencido de que, em meio ao senso comum e aos telejornais patéticos das manhãs, tudo o que podemos fazer é aprender juntos algumas maneiras bem práticas de resolver a vida, descobrir o que nos faz felizes, permitir que você olhe para si mesma, desenvolva seus caminhos e viva a sua vida. Não faço a menor ideia sobre como isso vai ser. Quer dizer, ao menos já sei que não posso te despejar meus medos e expectativas. Outra frase que ouvi por aí: “se você quer que seu filho seja igual a você, imite-o”. Devia fazer uma placa com essa frase no escritório, para ter certeza de que vamos compartilhar nossas imperfeições e frustrações juntos e aprender com elas.

Ah, aquele amigo se tornou pai de uma guria que você vai conhecer logo — e provavelmente dar risada “daqueles pais bobocas que um dia pensaram em idiotices envolvendo filhas”… Provavelmente ele ainda não tem resposta para aquela pergunta que ele me fez.

Mas tudo bem, realmente não espero isso.

Tudo o que espero é continuar essa conversa contigo daqui a pouco.

Um beijo do seu pai!

Esse texto foi escrito em setembro de 2015 como proposta para o Projeto Letríssimas, livro que reuniu contribuições de professores das Faculdades Integradas Rio Branco. Nesta manhã de 25 de abril, graças a uma equipe de parteiras batuta e a um mulherão de muita força e coragem, Jojô chegou! Dizem que nasceu com a cara do papai, mas o que importa é que veio com saúde, não?

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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