Quem ficaria feliz com minha dissertação publicada? (Ou: entenda o que é a Novas Edições Acadêmicas)

Dias atrás, recebi uma mensagem pouco comum. Num tom rebuscadamente formal, a remetente começava com o meu nome completo, uma apresentação (“Dirijo-me a você em representação da editora Novas Edições Acadêmicas”) e um convite a partir da minha dissertação de mestrado. “Me comunico com você (sic) para oferecer-lhe a oportunidade de publicá-lo em forma de livro impresso de maneira gratuita”, frisava a mensagem.

O e-mail apresenta a editora como uma divulgadora da ciência, interessada em publicar teses, dissertações, artigos e trabalhos afins em livros impressos sob demanda, distribuídos mundo afora por meio de uma rede de livrarias – que inclui a Amazon. O site da NEA reitera o convite, além de valorizar “métodos editoriais inovadores” para justificar as “publicações sem custo para o autor”. Ou, ao menos em parte: “se você preferir que seus livros sejam vendidos em livrarias você pode comprá-los online e vendê-los na livraria de sua escolha pelo preço que achar justo” – é importante frisar, com desconto para autores. Por fim, a operação prevê ainda que o autor faça os ajustes indicados pelos “revisores” antes de enviá-lo definitivamente junto com o contrato.

Ora, quem nunca ouviu o canto da sereia no qual um homem deve “plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro”? Em nosso país, a melhor forma de você ser reconhecido em qualquer evento é botar no rodapé a portentosa descrição “é autor do livro blablablawiskassachê” – seu carma sobe mesmo que ninguém leia. E, puxa vida, de graça!? É só mandar meu arquivo PDF para revisão, elaboração de capa, número ISBN, registro na Biblioteca Nacional (detalhe: é a da Alemanha, esqueça aquela da Cinelândia!), esperar por alguns breves trâmites e… Uia! Meu livro vai para lojas virtuais como a MoreBooks, com preço em Euro!

Tentador, não? Agora vamos sentar, respirar e entender isso melhor.

De um lado, o mercado editorial brasileiro é uma destas searas onde apenas os fortes sobrevivem. Fosse uma tarefa pouco turbulenta, iniciativas independentes sensacionais baseadas em impressão sob demanda, como a extinta editora Os Viralata, do Albano Martins Ribeiro, não teria sucumbido depois de cinco anos de batalha. Outro exemplo: autores com boas ideias podem ainda passar pelo crivo editorial da Editora Verve. O modelo de seleção e publicação é bem legal: aposta nas noites de lançamento para divulgar livros de poesia, contos, romances, viagens, esotéricos e afins. Depois de algumas semanas, caso a publicação ainda tenha exemplares, o autor banca o valor e se incumbe de revendê-los. Já no cenário acadêmico, propostas semelhantes à NEA só funcionam porque costumam compartilhar os custos iniciais de edição e impressão com os autores. É o caso da Editae Cultural, com bons títulos na área de comunicação.

Estes exemplos, ao lado de outros, buscam a sobrevivência num ecossistema dominado pelos grupos de sempre (aqueles estandes maiores nas bienais do livro) ou os que se especializaram em auto-ajuda, dietas milagrosas e cultura pop (os estandes mais abarrotados dessas mesmas feiras). Então chegamos ao outro lado da questão: minha dissertação até ficou joinha, mas atende a um nicho muito específico. Basicamente a qualquer um que entender o significado de “Análise de processos comunicacionais assíncronos para colaboração em um ambiente virtual de aprendizagem aberto” sem pesquisar no dicionário. Vou mais longe: mesmo quem se interessar pelo tema, consegue o arquivo do trabalho completo em um clique. Não parece interessante para nenhum grupo editorial elaborar um livro com este conteúdo.

Então qual a mágica por trás da Novas Edições Acadêmicas?

Além daquele estilo de texto “padrão com lacunas preenchidas para múltiplos envios”, os e-mails que recebi tinham como assinatura: “Novas Edições Acadêmicas é uma marca comercial de OmniScriptum GmbH & Co KG”. As peças do quebra-cabeças começam aqui. A começar pelo site principal do grupo alemão. Resultados relacionados trazem à tona as seguintes marcas:

Está claro que o esquema envolvendo convites por e-mail envolve uma escala mundial. Cansei de procurar por sites similares e segui o entorno da página da NEA no Facebook. Aparecem ali os perfis de duas funcionárias, incluindo a autora do convite por e-mail. É inquietante perceber que suas postagens se resumem a lançamentos de novos autores desde a sua entrada na rede, no início de 2013. A imagem de capa, a ausência de dados pessoais mais consistentes (como uma foto), mesmo o nível do discurso (compare você mesmo) sugerem a prática (bem comum em escritórios pequenos, diga-se) de múltiplas tarefas operacionais nas mãos de um só, dividindo as funções entre “personagens”.

Por meio do blog da Eva Amsem, convidada a publicar seu trabalho sobre “regulação subcelular da síntese e distribuição da melanina” pela Lambert Academic Publishing, descobri o termo sockpuppet, útil para descrever a tal prática dos personagens. Além, evidentemente, de uma crítica muito bem fundamentada a esta prática, que vai de encontro a uma postura científica genuinamente aberta. O artigo da Wikipedia relacionado à marca principal do grupo (VDM, de Verlag Dr. Müller) menciona escritórios mundo afora, centenas de milhares de livros publicados mensalmente (incluindo coletâneas encadernadas da Wikipedia!) e uma chuva de críticas – a mais interessante, assinada por Victoria Strauss, batizou a estratégia como “usina de autores”. Seu artigo ainda menciona detalhes do contrato, pouco amigáveis a quem se submete aos mesmos (“eles até pagam royalties, quando existirem”).

Assim fica mais fácil: reunir um volume descomunal de trabalhos, imprimir e entregar quando houver demanda (naturalmente, na maior parte dos casos, por influência direta ou indireta do autor) quase que exclusivamente em lojas internacionais (incluindo a própria). O Professor Doutor Wolfgang Philipp Müller, fundador da editora no longínquo 2002, tem pouca relação com a marca, ao que parece. Aquisições, lançamentos de marcas, promoção da impressão sob demanda e expansão internacional se devem ao diretor geral da VDM, Thorsten Ohm. A essa altura, uma boa parte dos amigos que chegaram até aqui enxergam, metaforicamente, uma editora semelhante ao organismo alienígena do filme “Guerra dos Mundos”, alimentando-se de qualquer animal que caia na armadilha para se fortalecer. Outros, seguramente, pensaram: “que ideia genial, devia ter pensado nisso antes!”.

Incontáveis textos em distintos idiomas recomendam cautela ao submeter um trabalho científico em editoras “moedores de carne”. O problema nem está nos preços exorbitantes do produto final, a estratégia agressiva (ainda que lícita) ou as letras miúdas do contrato. Teses e dissertações submetidas não passam por nenhuma avaliação científica nas mãos de pareceristas, ao contrário de publicações ou congressos mais rigorosos. No fim das contas, o próprio autor faz os ajustes indicados pela NEA (imagino que nem todos sejam gramaticais ou de informação). Todo acadêmico que se posiciona seriamente reconhece a dificuldade em se fazer ciência de verdade nestas condições. É evidente que, em função do volume de convites, não há qualquer critério para a escolha do que pode virar livro. Nesse cenário, instituições de ensino e pesquisa relevantes deveriam alertar seus pesquisadores: ter uma obra publicada na NEA não é, isoladamente, um bom sinal. Pelo contrário: a banalização do “livro pelo livro” é capaz de enfraquecer um trabalho que poderia avançar cientificamente.

Ou será que eu estou errado?

Um professor do Centro Universitário do Maranhão publicou sua dissertação sobre banheiros secos pela empresa. O texto reproduz o passo-a-passo (convite por e-mail, livro sem custos e distribuição mundial). “Pesquisei sobre a editora e verifiquei que se tratava de uma empresa idônea. Enviei meu trabalho para análise e, após 16 dias, recebi a informação de que a obra havia sido aprovado sob todos os aspectos examinados, estando apta para publicação”, descreveu o professor, feliz por ter publicado seu livro em uma “editora de renome”. Já o responsável pelo texto de lançamento do último trabalho de docente na Universidade Comunitária da Região de Chapecó valorizou o feito na manchete: “o livro foi publicado na Alemanha“.

O mesmo aconteceu com um professor do Sesc de Dourados, que se surpreendeu ao ver o interesse de uma “editora da Alemanha” em seu trabalho sobre um impasse diplomático entre Brasil e Paraguai nos anos 1960. “Propostas como estas não caem do céu”, desconfiou, antes de aceitar e ver o resultado pronto em menos de quinze dias. Está feliz por esta realização ao mesmo tempo em que vai bem na carreira. O coordenador do curso de ciências contábeis da Faculdade Legale, no centro de São Paulo, também está feliz em ver seu livro (o terceiro) disponível na Europa e na Amazon. O assunto? Contabilidade Islâmica.

Um mestrando da USP em São Carlos também teve um trabalho sobre relógios atômicos. Trata-se de uma adaptação de seus trabalhos de iniciação científica adaptados em oitenta páginas. “Para os nossos alunos, fica aqui o exemplo da determinação, entusiasmo e entrega aos seus projetos, enquanto que para os nossos docentes fica a satisfação, em face aos resultados obtidos”, finaliza o texto.

Se um dia puder cumprimentar estes colegas (ou qualquer das dezenas de autores), vai ser pela conquista ao concluir sua pesquisa, mas nunca pelo fato de ter uma dissertação ou tese disponível em alguma base de dados pública e ter aceitado o convite por e-mail (similar a qualquer spam) feito pela NEA. Publicar seu livro dessa forma pode ser legal para incrementar seu currículo Lattes, o plano de carreira de sua instituição acadêmica, entre outras vantagens desse universo onde nem sempre o seu valor é mensurado pelas pauladas que o conhecimento costuma trazer.

Posso até mudar de ideia, “jogar o mesmo jogo” e mandar um release com sotaque do prefeito de Sucupira: “meu pooovo, teeenho um liiivro publicaaado em uma editoooura da alemaaanha”. Mas não é esse o tipo de resultado que me interessa.