O que vai ser da “blogosfera brasileira”?

A Bia Granja, seguramente a maior especialista em cultura pop da web nacional, escreveu no YouPix sobre a migração da influência que produz algum conteúdo pela rede (gente como eu e você). Resumidamente, o vídeo online está na crista da onda: os “blogueiros” de ontem são os “youtubers” de hoje. Com estrutura mínima, familiaridade com linguagem audiovisual e boas ideias, é possível aproveitar um momento altamente favorável.

Faz total sentido. Se de um lado a estrutura de um blog é extremamente eficiente para organizar e manter repositórios de informações, o cérebro humano é muito mais ágil e eficiente diante de uma informação em vídeo, comparando-a com qualquer outra linguagem. Ao mesmo tempo, sites de compartilhamento e propagação de vídeos se popularizaram na medida em que ficou mais fácil criar e postar produções do gênero aumentou. Mesma facilidade que impulsionou os blogs – eu diria que foi a primeira ferramenta a experimentar seus efeitos.

O texto, no entanto, tropeça num conceito incômodo logo na pergunta do título: “o que aconteceu com a blogosfera brasileira?”, aditivada com outras ao final: “o que vai acontecer com ela? Como e do que eles vão sobreviver? Devem continuar buscando uma audiência mainstream ou quanto mais nichados maior a chance de continuarem relevantes? Qual vai ser o propósito dos blogs daqui pra frente?”.

Zero Hora, em 2007
(Um exemplo aleatório aí de “blogosfera brasileira” no início deste século)

Puxa vida, hein? E a blogosfera brasileira?

Tanto no texto quanto nos comentários, a autora explica. Ela se refere aos autores que agem como “empresas”, com o poder da audiência e, em consequência, “vivem estritamente de CPM” e trazem “resultados impactantes para ações de marcas”. São “superstars da internet, daqueles que tem uma legião de fãs que os cercam em eventos querendo selfies e autógrafos”. Ela completa, fazendo menção aos idos de 2008, quando “blogueiros ganhavam muito dinheiro com suas páginas e se tornavam profissionais”. Com o YouTube, a blogosfera brasileira “perdeu uma grande parte de sua grandeza e, em alguns casos, seu propósito”.

Estamos falando da mesma época em que o Andre Dahmer desenhou este mapa, especialmente compartilhado para gerar celeuma por coisas pequenas (“eu devia estar ali”, “faltou fulano”, “beltrano tá errado”, “sou melhor que aquele ‘marmota’ ali” etc). Uma das divertidas consequências desta ciumeira foi o super trunfo dos blogs, inventado pelo Ivo Neuman. O negócio provocou tanta choradeira que bolaram o gerador de cartas do super trunfo dos blogs

Andre Dahmer, genial!
(Cartografia da “blogosfera brasileira” no início deste século)

Tudo isso foi muito divertido. Agora, permitam que eu insista só um tiquinho em uma expressão que você quase não leu aqui nesses quase dez anos: a “blogosfera brasileira” que corre atrás de “grandeza e propósito” como “superstars da internet” são, em essência, como a Miss Cangaíba. Nos últimos dias, a delicada Sheislane deu uma força e tanto a esta metáfora: essa “blogosfera brasileira” é movida por candidatos dispostos a botar uma coroa na cabeça de todo jeito – chamei esse sintoma, em outra situação, de “ranquinite”.

O que me faz concluir que, se o “blogueiro de ontem é o youtuber de hoje”, basicamente o que temos é uma migração desse comportamento pretensamente profissional para outra ferramenta… Qual o peso disso, afinal?

O artigo ainda ressalta: a “blogosfera brasileira” precisa de outro posicionamento (“principalmente frente aos anunciantes”), como se especializar em temas específicos para serem reconhecidos e influentes. Seja lá o que for essa “blogosfera brasileira”, concordamos nisso: o foco está na relação entre os objetivos de quem compartilha conteúdo pela rede e o interesse de quem procura por eles. É isso que efetivamente importa.

Agora, em meio a essa complexidade envolvendo objetivos (muitas vezes inexistentes) e interesses dos outros (quase sempre ignorado), temos as múltiplas possibilidades de linguagem (texto, fotos, vídeos, áudios, tudo isso junto), outras múltiplas apropriações de ferramentas que já existem com outras inventadas enquanto você navega, potencializando os limites de forma a tornar irrelevante a pergunta “o que será?”.

Tanto faz a blogosfera brasileira

Ou, em síntese: enquanto se discute a “blogosfera brasileira”, a vida segue numa boa.

Em tempo, o Rodrigo Ghedin também escreveu sobre o tema – de um jeito muito melhor e, sem combinar absolutamente nada, concluímos com “a vida segue”.

Atualizado: A queridíssima Lucia Freitas (sem acento!) deu a dica e fui atrás: mais gente repercutiu. E é incrível como o texto da Bia Granja teve um mérito: cutucar e despertar quem se interessa por blogs – é o que diz o Manoel Netto, que historicamente sempre adorei discordar, hehe. a própria Lucia reforça o que eu também defendo: nunca houve uma única blogosfera brasileira, mas sim um plural “infinito quanto a humanidade”.

Por fim, tem ainda o texto da Simone, que remete ao que sempre serviu de referência para este espaço: “um texto gera outro e que nos apresenta novas pessoas interessantes pelo caminho”. E blogs são pessoas, não?

Atualizado na sexta-feira 13: a Lis Comunello não só reverberou o papo, pontuando a escolha certa das ferramentas de acordo com os objetivos, como também resgatou carinhosamente um texto antigo do MMM (dos primeiros insights pós-estreia do Interney Blogs). Enfim, conclui-se que a “blogosfera brasileira” está bem, manda lembranças.

André Marmota pode perder um grande amor, um amigo de longa data ou uma oportunidade de trabalho... Mas não perde a piada infame. Quer saber mais?

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