Roteiro lírico e saudoso por Santiago

Olha, fazia muito tempo que não acionava esta seção, comentando participações dos cinco ou seis perdidos que ainda comentam ou mandam e-mails para cá. Nada melhor do que navegar pela memória a partir de um pedido do Cassio Politi.

Cara, não sei se vai ser bom para você lembrar dessa viagem... Mas vou correr a Maratona de Santiago, em seis de abril. Como eu sei que você já conhece, adoraria receber algumas dicas sobre a capital chilena.

Por que seria ruim lembrar de uma das coisas mais legais que fiz na vida? Além do mais, minha cabeça decidiu viajar sozinha neste fim de semana… Não vai ser difícil fazer uma breve escala no Carnaval de 2008. Aliás, esta é uma observação importante: esse passeio já tem seis anos. Desde já, faço um convite: registre aqui outras histórias e sugestões de passeios sobre Santiago. Provavelmente muita coisa mudou nesse período. Inclusive eu.

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Sabrás que no te amo y que te amo
puesto que de dos modos es la vida,
la palabra es un ala del silencio,
el fuego tiene una mitad de frío.

Já decidiu qual hotel vai ficar? Torço para que seja próximo a uma estação de metrô! A cidade é perfeita para ser conhecida pelor suas estações (www.metrosantiago.cl). Especialmente os arredores da estação Plaza de Armas, onde ficam os calçadões – o Paseo Ahumada é o que concentra as lojas mais bacanas. Eu começaria com uma caminhada por ali, nos arredores da catedral e do mercado central.

Em situações normais, procuraria pelo Ibis: é o tipo de lugar que não revela surpresas, e tem um ao lado da estação Manuel Montt, em Providencia. Naquele fevereiro, o escolhido foi o Plaza Londres (www.hotelplazalondres.cl). Fica bem no centro, numa área sossegada. Fachada antiga, ambiente aconchegante, quartos grandes – mas, na época, um pouco velhinhos. Tinha uma hóspede que deixava a porta de seu quarto aberta! Além disso, a própria estrutura do prédio não permitia ar-condicionado: em seu lugar, uma verdadeira réplica do R2-D2!

Enfim, voltando ao centro de Santiago. Em 2008, um rapaz chamado Hanz apareceu. Perguntou pela Escrava Isaura, pelo futebol brasileiro, fez um elogio aos nossos vizinhos (assim como vocês, também adorammos argentinos: grelhados e mal passados!), falou da quantidade de restaurantes em São Paulo… Então fez a abordagem que queria: um convite para um almoço no Donde Augusto, dentro do mercado central (www.dondeaugusto.cl). De fato, o lugar é sensacional. A sugestão do Hanz: centolla. É um tipo de caranguejo gigante, mas simplesmente delicioso. “A centolla é que nem a mulher brasileira: não tem comparação!”, explicou o anfitrião. Deve ser um prato pouco pedido: para comer, é preciso usar os babadores da casa!

Só quando veio a conta fui perceber porque o negócio era tão bom: certamente foi o almoço mais caro que já paguei na vida. Valeu cada centavo – mas é bom ficar atento ao preço da Centolla. Fiquei tão perdido com os números a ponto de entregar apenas uns cento e poucos pesos ao simpático trio cantante que embalou a refeição com um clássico “aaaaaaaaaaaa-maaaaaaaa-damante”, do Rei Roberto, no mais puro espanhol local. Devia ter dado uns mil pesos pra trupe. Caramba, nem quero pesquisar quanto custaria uma Centolla…

No quiero que vacilen tu risa ni tus pasos,
no quiero que se muera mi herencia de alegría,
no llames a mi pecho, estoy ausente.
Vive en mi ausencia como en una casa.

Mas enfim. A melhor forma de se orientar pela cidade é por sua avenida principal. La Alameda, como é chamada a Avenida Bernardo O’Higgins, o pai da pátria chilena. Ali fica o Palacio de La Moneda, antiga casa da moeda e sede do governo. O prédio é conhecido por ter sido o palco do golpe de estado em 11 de setembro de 1973, comandado por Augusto Pinochet. Salvador Allende, então presidente, suicidou-se ali por não aceitar a rendição. Atrás do prédio fica um centro cultural, com exposições temporárias (www.ccplm.cl).

Na mesma avenida fica outro lugar bacana para se ver: o Cerro Santa Lucía, com muito verde e construções hisóricas como a fonte de Netuno e o Castelo Hidalgo (www.castillohidalgo.cl). Só tome cuidado ao caminhar por ali à noite: você pode dar de cara com uma briga de garrafa…

Está com pique para caminhar bastante? Vá de metrô até a estação Nuble no outro lado da cidade, percorra um dos bairros mais sossegados (ou inóspitos) de Santiago por uns 15 minutos (parecem uns 280 se for debaixo de sol a pino) até chegar ao Estádio Nacional do Chile. Com alguma sorte, vai ser possível fugir do nada simpático porteiro do local: provavelmente ele vai dar a triste notícia de que o estádio está fechado para visitas e “também é proibido fotografar” Da mesma forma, provavelmente ele vai continuar sentado na guarita dele: dá pra fazer a volta ao redor dos porões da ditadura e até registrar, de longe, o campo de jogo.

Leia também: manifesto a favor das visitas aos estádios

Além de caminhar, quer correr ou praticar algum esporte? Experimente o Parque O’Higgins – sim, o general que conduziu o Chile à sua independência dá nome a um lindo parque na região central. Tem pista de corrida, quadras esportivas, uma abóbada elíptica com um palco para espetáculos, pista de patinação, velódromo, muitos ciclistas e atletas, churrasqueiras para as famílias desfrutarem aos domingos, aulas de natação… Ali também tem um parque de diversões aos moldes do antigo Playcenter paulistano: o Fantasilandia (www.fantasilandia.cl). Vale a visita numa próxima viagem, com as crianças.

Tem ainda um bosque delicioso para sentar e pensar na vida. Quem sabe encontrar cenas como a de uma vovó brincando de bola com a garotada no fim da tarde. A abuela e a buela. Sacou? Enfim. O lago do bosque ainda oferece românticos pedalinhos! Ou “autobotes”, como explicaram os dois simpáticos velhinhos responsáveis pelo aluguel. Um deles, ao notar o sotaque brazuca, tratou de explicar: os pedalinhos vieram de Paquetá, Rio de Janeiro. Lembro que o senhor ficou apavorado ao saber que São Paulo tinha mais habitantes que o Chile inteiro. Camarada, ele deixou meia hora de pedalada pelo preço de 20 minutos – talvez soubesse que levaria esse tempo para voltar à margem, exausto.

Tú eras también una pequeña hoja
que temblaba en mi pecho.
El viento de la vida allí te puso.
En un principio no te vi: no supe
que ibas andando conmigo,
hasta que tus raíces
horadaron mi pecho,
se unieron a los hilos de mi sangre,
hablaron por mi boca,
florecieron conmigo.

A bandeira do Chile tem o azul do Oceano Pacífico, o branco da neve nas cordilheiras e o vermelho, que representa o sangue dos índios Mapochos, que defenderam seu território contra os espanhóis. Mapocho também é o nome do rio que corta a cidade: uma caminhada a partir do centro para a outra margem nos transporta para as calçadas do bairro boêmio Bellavista. Ali tem um lugar bacana para compras perdulárias: o Patio Bellavista (www.patiobellavista.cl). Tem uma lojinha especializada em joias elaboradas com lapis lázuli, a pedra nacional do país (chama-se Inti Rey, rebatizada carinhosamente de Inter Ney!). Pode ser que ainda exista um simático quiosque de souvenirs, capitaneada por uma senhora com a camisa do Colo-Colo – se bem que seus produtos caíam com frequência com a força do vento, talvez a banquinha já tenha voado.

Perto dali, outra atração que rende uma tarde inteira: o Cerro San Cristobal, sede do Parque Municipal da cidade (www.parquemet.cl). É o “Pão de Açúcar” de Santiago, com direito a bondinho (funicular) e uma vista deliciosa da cidade do alto, além da estátua da Imaculada Conceição e o zoológico. Dá para descer pelo mesmo bondinho ou optar pelo teleférico, que vai parar numa estação chamada Oasis, do outro lado do parque. O passeio de teleférico pode não ser dos mais animados para quem tem medo de altura, mas garante uma vista lindíssima da cidade. Algumas crianças-ninja, que saltavam lindamente pelas muretas no alto do cerro, ou mesmo alguma menininhas-emo pré-adolescentes de gravata, saia xadrez, olhos carregados de maquiagem negra e cabelos vermelhos (eram do Rebelde?) pareciam ter mais coragem.

Tem um lugar que curti fazer comprinhas perdulárias: os arredores da estação Los Leones, em Providencia, com dezenas de lojinhas de games, videos, brinquedos… A Falabella do bairro, bem como o Mall Panorâmico (onde li pela primeira vez o termo “frozen yogurt”), também valem alguns pesos gastos por ali. Está com sede? Procure um carrinho com mote com huesillos, bebida à base de pêssego com grãos saborosos, e refresque-se.

Leia também: “rico mote com huesillos”

Ficou com fome? Dizem que é caro, mas deve valer a pena subir e experimentar alguma coisa no Restaurante Giratório (www.giratorio.cl): fica no último andar de um prédio de dezoito andares no bairro da Providencia. Mas não precisa comer coisa cara como Centolla e alta gastronomia todo dia: tem uma rede de lanchonetes bem batuta, o Schopdog (www.schopdog.cl). Lanches e porções bacanas. Conheci a que fica perto da Plaza de Armas. Outro lugar com lembranças doces, excelente para jantar: El Meson Nerudiano (www.elmesonnerudiano.cl).

Nosotros, los perecederos, tocamos los metales,
el viento, las orillas del océano, las piedras,
sabiendo que seguirán, inmóviles o ardientes,
y yo fui descubriendo, nombrando todas las cosas:
fue mi destino amar y despedirme.

Deixei o melhor para o final. Antes do Meson, do Patio Bellavista ou do Cerro San Cristobal, não deixe de visitar La Chascona, uma das três casas do Pablo Neruda (www.fundacionneruda.org). A casa é linda. A história do poeta, mais ainda. E se sobrou grana das compras perdulárias, é inevitável comprar chaveiro, postais, lápis, calendário, caneca, porta-lápis, marcadores de livro, camisetas… Ou ainda um quepe (?) ou bolsa de vinho (???). Saí de lá morrendo de vontade de ir a Valparaiso e Isla Negra. Também não tive a chance de ir a uma das vinícolas. Outro lugar que pretendo conhecer: o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, inaugurado em 2010 (www.museodelamemoria.cl). É um museu interativo sobre o duro período da ditadura chilena, outra verdadeira aula de história. Fica perto da estação Quinta Normal do metrô.

Leia também: Neruda e talvez o melhor texto da história do MMM

Quer esquentar os motores antes de viajar? Procure pelo filme “Gloria”. A premiada atriz Paulina Garcia contracena com sua vida e com Santiago em todas as cenas, segurando o filme lindamente. É uma bela representação dos tais altos e baixos do destino – e mesmo depois de tudo, Gloria continua firme e cativante. Para quem está no clima de Copa do Mundo, tem ainda o documentário que conta a classificação da seleção chilena para o Mundial da África em 2010: “Ojos Rojos”. Outra dica cinematográfica importante: nem pense em assistir a “Sobreviventes dos Andes”, de 1976, ou “Vivos!”, de 1993: ambos falam de um avião que cai nas cordilheiras e, até o resgate chegar, os poucos vivos se resguardam com o único tipo de carne congelada disponível…

Leia também: olhos vermelhos na prévia de Brasil x Chile

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A essa altura, você se pergunta “por que o Cassio desconfiou se isso seria bom ou não”. A não ser que você seja um dos cinco ou seis perdidos que ainda frequentam este blog e sabem que planejei e executei este passeio com a fotógrafa que ilustrou este relato – que também me apresentou ao Neruda, o autor dos versos que as acompanham. Pelo seu prisma, descobri que é possível viver movido pela saudade, mas de uma forma melancólica, pautada por variáveis capazes de criar um momento perfeito (com centolla e coca-cola) e que jamais voltarão a se encontrar. Como em outro Carnaval, com a mesma companhia, em Buenos Aires: muito legal, mas com uma sequência de roubadas (aliás, elas merecem outro textão). “Mas é sempre assim: o próximo fim de semana de alguém no Chile nunca será igual ao seu”.

Claro que não. Mas viver é como viajar. Dá para desembarcar, desfazer a mala e, depois de organizar a memória, ir atrás da saudade e alimentar as ausências que ela traz, ouvindo algo como “tudo o que me acostumei a sentir ontem e continuarei a viver amanhã será a sua falta”. Também podemos nos dar conta que o imponderável é inevitável. Cada desembarque será diferente do outro, e ao contrário daquele prisma, são saudades oxigenando constantes lembranças novas, transformando-se num convite à presença: “seja qual for seu próximo roteiro, desejo que você me coloque nos seus planos”.

É hora de replanejar Buenos Aires, Santiago, o que vier. Mudar as variáveis e experimentar novas e lindas histórias.

Y antes de despedirme, quiero estar
preparado y llegar con tus trabajos
como si fueran míos, a la muerte.

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Ah, sim: se um dia te der vontade de procurar por um presente, procure pelo livro “Roteiro lírico e sentimental da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”, do Vinícius de Moraes, cujo título (também) inspirou este relato.

Mas também podem ser alguns cartões postais.

André Marmota formou-se jornalismo e ainda estuda o tema na pós-graduação. Mas o que importa é ter saúde, não é mesmo? Quer saber mais?

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