Dona Iracema

Conheci Dona Iracema em um sábado de junho. Não era um dia qualquer: o Brasil acabava de passar pelo Chile, nos pênaltis, naquele sufoco injusto – mesmo se soubéssemos o que aconteceria mais tarde, aquele time aguerrido do Jorge Sampaoli merecia mais. Talvez a Copa do Mundo fosse menos dolorida e mais interessante… Mas a gente nunca vai saber.

Mas enfim. Fui acompanhando uma das netas da Dona Iracema. Ela não cabia em si de tanta saudade: não dava um abraço na avó desde o Natal. “É a minha lembrança, ao lado dela: sempre passamos as festas ao lado deles. Então meu avô ficou mal, não sai mais de casa e as coisas mudaram um pouco”, ela dizia no caminho.

Fomos de carona com outro neto da Dona Iracema, a esposa dele e a filha – uma menina cujo encantamento faz com que as coisas girem facilmente em torno dela. Alternava ansiosamente as brincadeiras entre bonecas, outras traquitanas e outros que “precisavam ser comprados”. Paralelamente, tentava saber mais sobre aquela senhora que motivou a saída. “Ela tem uma personalidade forte, reclamona, mas invejável. Mais de noventa anos e mais lúcida que eu, parece uma adolescente”, ainda lembrou a neta, enquanto caminhávamos em direção ao ajeitado apartamentinho térreo onde morava.

Lá estava ela, sentada num canto do sofá, sorrindo. Parecia vaidosa e elegante: ajeitava seus cabelos de algodão, caprichava no batom (provavelmente para ninguém reparar nos óculos), vestia-se como se fosse à missa. Sobre suas pernas, deitava o marido, cinco anos mais velho, ruinzinho, prostrado. Devia sentir apenas o afago de Dona Iracema, como se mais ninguém estivesse ali.

– Como a senhora está? – perguntou a neta, enquanto a abraçava carinhosamente.

– Ah, estamos aqui, nessa mesma rotina. Esperando um pelo outro, né? – respondeu, calmamente, dando uma risadinha.

Deixei o resto da família dizer “oi” antes de me apresentar.

– Quer dizer que você é o famoso André, hein? Ainda bem que tive tempo para conhecer você! – murmurou, sem deixar de dar uma nova risadinha.

Falamos sobre a saúde. A deles, a nossa, a do mundo. Não precisava ser assim. Isso incluía o joguinho do Mineirão mais cedo. Fui dar uma volta pelos cômodos, sorrir de volta para as fotos espalhadas. “Vem ver estes móveis. Parecem novos, não? Foi meu avô quem fez”, contava a neta, orgulhosa. Bateu uma vontade de ficar ali horas, de ouvir histórias enquanto poderíamos ficar ali torcendo para a Colômbia eliminar o Uruguai.

– Já quero ir embora! – pediu, ingenuamente, a menina. Já fui um garoto assim, admito. Lembro que quando ia com meus pais a tiracolo na casa das minhas tias, igualmente dizia “olá”, ficava um minuto no sofá e corria para fazer outra coisa. A gente só fica velho quando envelhece… Como estava ali “de enxerido”, achei de bom tom ir embora também.

– Não vou perder a carona, Dona Iracema. Mas ainda quero voltar aqui para passar uma tarde todinha, hein!

– Ih, meu filho, nem te preocupa. Vai com Deus.

Semanas depois, Dona Iracema foi surpreendida pelo mesmo derrame que havia derrubado seu marido um ano antes. Ficaram os dois ali, acamados, provocando uma confusão entre as memórias do passado e as duras batalhas do presente. Pouco antes do Natal, ele foi embora – pessoas deviam ser proibidas de partir em finais de ano, mesmo quando todo mundo já espera por isso. Entre uma internação repentina e outra, Dona Iracema nem soube do funeral. Ou, vai saber, sentia tudo: vinte dias depois, não suportou mais uma internação. Sequer foi levada para a UTI: foi-se encontrar com o seu amor “até que a morte os separe” à base de medicamentos reconfortantes.

Dizem que é da minha natureza obsessiva essa coisa de ficar estatelado diante de uma história capaz de transformar um placar de 7 a 1 em algo irrelevante, o que explica a sensação de “sempre dever algo pra alguém”, que leva a um desejo pouco saudável de “quitar tudo antes que tudo acabe”. Talvez se eu ficasse a tarde toda, ou voltasse outro dia, a vida pudesse ganhar um colorido diferente.

Mas é como a seleção do Chile na Copa, Dona Iracema: a gente nunca vai saber.

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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